Resumo  

Este artigo aborda o que é a Psicanálise e a descoberta do Inconsciente como base de toda a  ciência psicanalítica. Freud, pai da psicanálise, descobre que o ser humano reprime e recalca  sentimentos e emoções os quais não são aceitos pela sua consciência, vindo a constituir toda a  ordem de perturbações psíquicas as quais serão objeto de estudo e análise, promovendo o  tratamento através de um processo que consiste em ouvir o paciente em livre-associação, o  qual mais tarde a paciente Anna O. vai denominar: “A Cura pela Fala”. Apresentaremos  também a seguir a Fundamentação da Prática Psicanalítica que consiste praticamente em  promover o retorno do reprimido para a consciência para que possa ser reelaborado.  

Palavras Chave: consciência; inconsciente; reprime; recalca; livre-associação.  Abstrato 

Introdução

Muito se ouve falar da psicanálise, muitas pessoas já passaram por psicanalistas, outros já leram a respeito, a verdade é que ela vem se popularizando. Hoje em dia em qualquer banca de jornal você pode comprar uma revista, um livro, falando sobre a psicanálise, mas o perigo da popularização é que junto com essa popularização pode vir também certa vulgarização sobre o tema. Por isso nós vamos discutir neste artigo, de uma forma mais analítica, o que seria a psicanálise e a qual a fundamentação da prática psicanalítica. Eu brinco sempre com os meus colegas psicanalistas que não é fácil de passar essa primeira visão introdutória, porque definir uma coisa tão vasta como a psicanálise parece ser uma heresia. Por isso normalmente brinco dizendo que é mais fácil dizer o que ela não é do que propriamente o que ela é, mas é bom começarmos dizendo que a psicanálise é um procedimento científico (pelo menos segundo a visão de Sigmund Freud o pai da psicanálise), o qual visa trazer ao homem à consciência aquilo que está reprimido no inconsciente, ou seja, para que possamos entender bem a psicanálise precisamos entender que se fôssemos resumir em uma única palavra o que é, e qual a descoberta mais importante do Freud, poderíamos dizer que essa palavra é o inconsciente. O inconsciente é à base de toda a ciência psicanalítica. Ao falar de inconsciente nós estamos afirmando de uma forma subliminar que o sujeito humano não é a mesma coisa que a sua consciência, ou seja, o ser humano não é um ser unívoco, um ser que pode ser pensado só a partir dos atos da sua consciência; não, segundo Freud o sujeito humano é um sujeito fendido. Ele até usou um termo técnico para descrever o ser humano, esse termo é: clivagem, clivagem do eu, significa exatamente um sujeito fendido, cortado entre dois registros: o registro da consciência e o registro da inconsciência. Segundo essa ótica o ser humano por isso não é dono da sua própria consciência, ele não consegue dominar tudo aquilo que está no seu EU, porque, o seu EU está cortado, fendido entre duas esferas antagônicas e porque não dizer paradoxais. É importante termos em mente que esse inconsciente seria mais ou menos o oposto do que é a consciência. Vejam que essa idéia freudiana que inaugura e dá origem à psicanálise é de certa forma o oposto da visão aristotélica do homem. Para Aristóteles, o ser humano se resumia na sua consciência, ele descreve o homem como um animal racional. Com o advento da psicanálise, quando Freud começa a estudar os seus pacientes, ele percebe que o homem de fato é um animal racional, mas ele não é só racional, ele é um ser que também deve ser descrito a partir da sua esfera irracional. Para Freud o homem é tão irracional como racional. É por isso que uma das metáforas mais usadas dentro da psicanálise e até mesmo na psicologia é a idéia do iceberg. A ponta do iceberg não é o iceberg, ao contrário, a ponta do iceberg é apenas uma pequena parte daquilo que está submerso. Da mesma maneira a consciência do homem não é o lugar fixo de sua morada, não é o resumo da sua essência. A sua consciência é apenas uma parte do seu EU. Para a psicanálise há um EU inconsciente, há um registro, há uma parte inconsciente tão importante quanto à parte consciente no nosso chamado EU. Agora, porque que esse EU fendido é tão diferente dos outros EUs defendidos por outras ciências? É porque esse EU fendido também trabalhará com outra noção muito importante que é a noção de um inconsciente reprimido, ou seja, nem tudo aquilo que você pensa, nem tudo aquilo que nós somos, nem tudo aquilo que nós queremos chega à consciência. Há uma parte reprimida, há uma parte recalcada, retirada propriamente da consciência. Agora porque que essa parte foi reprimida? Exatamente porque o ser humano não é uma unidade, não é um ser unívoco como eu afirmei há pouco. É um ser que existe a partir de duas esferas muito antagônicas. Ele é formado pelo corpo, pelos seus instintos, é formado por tanto, pela natureza, mas também recebe toda carga da sua vida social. É formado por uma realidade moral, social, que vai muito além da sua mera natureza biológica, e a partir desta fenda, deste conflito entre o corpo e os instintos e aquilo que é social, é que teremos o fenômeno chamado de repressão, ou seja, o sujeito é obrigado a reprimir aquilo que não pode ser aceito pela sua consciência moral. Nós damos até nome para essa consciência moral: Freud chamou isso de superego, ou seja, a parte moral, à instância moral responsável pelo ser social, por essa parte consciente ligada ao outro. Mas como foi dito há pouco o ser humano não é formado só pela sociedade, ele tem também uma base instintual, uma base natural, daí os paradoxos de sua existência: o mesmo ser humano ambiguamente pode amar e odiar, o mesmo ser humano pode querer e não querer o mesmo objeto, o mesmo ser humano pode querer preservar e também paradoxalmente destruir o mesmo objeto. É exatamente essas contradições do EU do ego que vão fazer com que o ser humano seja um ser fendido, um ser diferente de todos os outros seres. Entendam que quando digo diferente de todos os outros seres é simples entender que o animal irracional não tem essa fenda, ele não precisa viver esses paradoxos, ele na verdade está praticamente adaptado à natureza, ele só faz aquilo que é necessário ser feito para sua sobrevivência. No caso do ser humano não, ele tem as suas paixões, ele entrou no registro do desejo, ele vai sempre além daquilo que é meramente necessário. Na verdade a necessidade é apenas uma parte pequena daquilo que o EU é, o ser humano é mais desejo do que propriamente necessidade, e quando nós falamos de desejo nós estamos falando do regime do outro, nós estamos falando de algo que nos liga ao desejo do outro. É por isso que um psicanalista francês chamado Jacques Lacan afirmou que o desejo do 
homem é o desejo do outro (LACAN, J.O seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise -1964, pag. 223), ou seja, o ser humano deseja ser desejado pelo outro, deseja ser confirmado pelo amor do outro, deseja ser reconhecido pelo outro, é só perceber como uma criança lentamente sai daquele registro básico das necessidades de auto preservações, como por exemplo é a idéia do alimento, da necessidade de ter o leite para buscar gradativamente o sorriso da mãe, o olhar da mãe, o abraço da mãe. É nesse momento que Freud vai introduzir a idéia de que o ser humano é esse ser errático, é esse ser que lentamente vai entrando numa bifurcação, que vai fazendo com que ele saia do regime da necessidade instintual, meramente animal e vá buscar o desejo do outro, o reconhecimento no olhar do outro. Vejam que “psicanalisar” não é fácil exatamente por causa disso. Muitas vezes o indivíduo está doente não por causa de uma doença propriamente física, orgânica. Freud logo no início dos seus trabalhos percebeu isso: grande parte das doenças humanas são doenças psíquicas, são doenças existenciais, ou seja, o indivíduo está doente porque muitas vezes falta afeto, falta carinho, ou é inserido num ambiente negativo, num ambiente insatisfatório para o seu desenvolvimento, para sua evolução. Pode lentamente se construir a partir da insegurança, a partir de um complexo de inferioridade. Então perceba que lentamente esse sujeito que pode ter até um corpo normal e se desenvolver biologicamente, mas de repente não tem o mesmo desenvolvimento emocional, não tem o mesmo desenvolvimento psíquico. Isso vai fazer com que o indivíduo adoeça por uma razão que não é a razão do corpo e sim a razão da sua mente. É isso que Freud chamou de neurose (Neurose e Psicose 1924), é exatamente uma doença que não é uma doença, é mais um agravo existencial de que propriamente uma doença. A neurose é um conflito, por isso para que a neurose exista não precisa existir uma inflamação, não precisa existir uma lesão, não precisa existir um defeito orgânico real. Muitas vezes essa doença nada mais é do que uma inconformidade mental, uma inconformidade psíquica e é exatamente esse tipo de desenvolvimento anormal que é tratado pela psicanálise. A psicanálise não vai examinar propriamente o corpo, quem faz isso é o médico. A psicanálise estará focada em buscar essa parte inconsciente, aquilo que muitas vezes o sujeito não consegue nem verbalizar, por que, como eu disse há pouco, isso é inconsciente. A coisa é tão complicada que às vezes o indivíduo não sabe que sabe. Aquilo que ele sabe está inconcientizado, está numa esfera mental muito mais profunda do que a sua consciência. A análise e a terapia psicanalítica servem exatamente para isso: para fazer com que à medida que o indivíduo consiga falar sobre o seu EU, consiga descrever, narrar a sua história, consiga lentamente soltar essas amarras, esses traumas, coisas que ligam o sujeito ao passado. É por isso que Freud num resumo evidentemente muito precário disse que a psicanálise é a cura pela fala, porque o sujeito ao falar se reconhece, o sujeito ao falar consegue perceber uma parte da sua história que muitas vezes está mal resolvida, que reverbera ainda em latência e a partir dessa fala que no sentido técnico é chamado de associação livre ou livres associações, o indivíduo vai falando, falando, falando, sem ter um compromisso para escolher um tema específico, e de tanto falar ele quebra essa corrente, esse vínculo com a parte consciente da mente e aí essa parte inconsciente aflora. É aquilo que lentamente Freud chamou de: “o retorno do reprimido” (FREUD, 1915). A psicanálise de forma técnica vai proporcionar o retorno do reprimido. Não o retorno do reprimido como sintoma, por que isso acontece na neurose, isso acontece na psicose, isso acontece na perversão sexual, mas no caso da técnica psicanalítica ela trará esse conteúdo reprimido para a consciência para que ele possa ser reelaborado, é o que chamamos de “perlaboração”. Perlaborar é dar um novo sentido, ressignificar um conteúdo que estava recalcado, reprimido, trazer à consciência e elaborar aquilo de forma positiva.


A Invenção da Psicanálise

No documentário “A Invenção da Psicanálise”, de 1997, narrado e comentado por Elisabeth Roudinesco, historiadora, e o psicanalista Peter Gay, biógrafo de Freud, podemos ter uma visão esclarecedora sobre a criação do método analítico de Sigmund Freud: A Psicanálise.
No documentário em questão, Sigmund Schlomo Freud, relata que começou sua vida profissional como médico neurologista, no tratamento de pacientes neuróticos, onde descobriu fatos novos e importantes sobre o inconsciente. Ele reúne um grupo de médicos e historiadores e cria a primeira associação freudiana: a Sociedade Psicológica da Quarta-feira; um laboratório de novas idéias onde se discutiam vários assuntos que envolviam a vida daqueles profissionais, mas com o foco principal em doenças psíquicas e mentais. Anos depois e com cada vez mais adeptos, a Sociedade Psicológica da Quarta-feira torna-se a Fundação Psicanalítica Internacional, dirigida por Carl Gustav Jung.
Começa assim a desenvolver sua teoria psicanalítica a partir do tratamento de uma psicose chamada histeria, a qual era considerada uma doença nervosa, supostamente originada no útero, geralmente identificada em mulheres.
Freud, de família judaica, tem sua primeira formação no Hospital Saepêtrière, na época mais conhecido como um hospício.
6
Freud vai a Paris para assistir as aulas de Jean Martin Charcot, um dos maiores nomes da neurologia da época, o qual vinha conseguindo grandes resultados no tratamento da histeria utilizando a hipnose, o qual concluiu que durante a hipnose os sintomas de histerias desapareciam, chegando à conclusão que tais sintomas não estavam relacionados ao útero, mas sim a uma neurose funcional. A partir daí Freud faz uma nova ligação entre a histeria e a sexualidade, pois acreditava que existia um trama real para toda neurose e que a sexualidade assumia a vida psíquica, como conseqüência de conflitos não resolvidos na infância, trazendo mais tarde o tema sobre as feridas originais.
Freud conhece Josh Breuer, médico judeu especializado em doenças nervosas no Instituto de Fisiologia de Viena e se interessa pelo caso de uma paciente de Breuer, chamada Anna O, a qual veio a desenvolver histeria aguda. Breuer, em seu processo terapêutico, passa a ouvir Anna O. e percebe que, “sendo ouvida” os sintomas começam a desaparecer. Freud, acompanhando os métodos de Breuer, desenvolveria mais tarde toda a sua teoria psicanalítica sobre sexualidade. Mais tarde os dois lançaram um livro que narrava um novo método de tratar histeria: O método catártico, que seria uma cura através da palavra e começa assim a criação progressiva da psicanálise. Em 1989, Freud se viu convencido por uma paciente para que não a toca-se, mas que a ouvisse, passando então a usar um divã e a ouvir os pacientes para que o método terapêutico fosse focado no ato das palavras, deixando os pacientes livres para falar abertamente o que quisessem falar.
Freud conhece Wilhelm Fliess que exerceu grande influencia para que ele desenvolvesse teorias para compreensão das neuroses, nascendo mais tarde a psicanálise, junto com teorias sobre bissexualidade, sedução e sua primeira teoria do aparelho psíquico.
Quando Freud elaborava a teoria da sedução, percebe que existe um trauma real para toda neurose, o qual provavelmente teria conotação de trauma sexual na infância, passando mais tarde a desenvolver também a teoria da fantasia, que surgiria com reminiscências e fantasias carregadas pelo inconsciente, mas que de fato não aconteceram, o que leva Freud a concentrar-se no sujeito, tendo marcado assim o nascimento da psicanálise.
Em 1905, Freud publica a teoria sexual em três ensaios, atribuindo a adultos e crianças fantasias sexuais e o complexo de Édipo, gerando um escândalo para a sociedade puritana da época.
Com o nascimento da psicanálise, abandonam-se os métodos antigos de cura de pacientes neuróticos por banhos e eletrochoques e passa-se a dar ênfase em um tratamento através da fala.
7
Fundamentação da prática psicanalítica
Segundo o professor Arthur Mendes, professor de psicanálise, fundador do site www.profarthurmendes.com.br, a prática psicanalítica começa com o fim da sugestão hipnótica e se inicia com a livre associação, regra fundamental da psicanálise, passando a trabalhar as “resistências” do analisando e dando a palavra para aquele que sofre. Segundo a sua visão, passamos a explanar como surgiram os fundamentos da prática psicanalítica:
Freud sabia que o paciente sofria de um trauma e que esse trauma estava ligado à impossibilidade de reagir a um fenômeno como ele gostaria. Então ele começa a perceber que o indivíduo recalca reações, afetos, sentimentos, desejos, sonhos e devaneios e começa a reprimir uma série de coisas, e que isso tem um efeito: ele começa a apresentar sintomas histéricos, os quais hoje em dia poderiam chamar de sintomas depressivos por psicose, síndrome do pânico, ansiedade. Freud começa a perceber que o indivíduo adoece porque ele resiste, ele resiste em acessar emoções que ele não quer sentir, ele resiste em acessar a esse desejo de reagir como ele gostaria. A questão toda recai na seguinte característica: o indivíduo resiste, e então a análise, que é a técnica que ele está fundando é uma análise das resistências (Freud e Breuer, 1895), ou seja, a análise de como o indivíduo resiste a falar livremente sobre si mesmo, e para que essa analise da resistência seja feita, ele deve ter consciência de como ele se defende e de como ele resiste ao que ele mesmo sente. Charcot utilizou-se da hipnose para demonstrar que a causa da histeria era emocional e não tinha necessariamente origem no útero como se pensava antes, porém Freud não gostou dos resultados, porque percebeu que a hipnose, essa sugestão pela palavra do outro no histérico tinha uma capacidade de mover o sintoma, inclusive, dependendo da autoridade do sugestionador o sintoma poderia até sumir, mas voltava e que o indivíduo também fantasiava em estado hipnótico e que resistia em falar sobre o trauma, sobre a origem do sintoma, o que a tornava ineficaz na cura, decidindo por fim abandonar de vez a hipnose e parar com a sugestão. Decidiu-se, portanto, partir para a análise do discurso livre do indivíduo, com foco nas resistências que surgiam nas palavras desfiladas livremente durante a sessão, dando início à livre associação, com o intuito de entender o comportamento do paciente.
Freud percebe que o indivíduo resiste a reagir porque ele sofre de comandos internos e que a terapia precisa livrá-lo desses comandos e que o terapeuta não pode ser mais uma figura que vai dar mais uma regra ou que vai dizer faça isso ou faça aquilo, pois é exatamente disso que o indivíduo sofre. A fundamentação psicanalítica é uma terapêutica onde o terapeuta não sugestiona, não diz como deve ser feito, o que deve ser falado, ou seja, é preciso dar liberdade discursiva para aquele que está procurando a terapia. Freud sempre se definiu como um homem de ciência e para ele um homem de ciência é um homem que ama a verdade. Para ele a ciência seria o amor a verdade. Mas a qual verdade? A verdade do sujeito é claro! A verdade que ele se recusa a falar para ele mesmo, sobre os seus próprios afetos.
Para pontuar o que eu quero dizer como resistência, conceito bastante importante em psicanálise, a resistência é um conjunto de reações de um analisando que criam obstáculos para o desenrolar da análise. A resistência pode aparecer no ego como um mecanismo de defesa, ou no id quando o analisando normalmente evita falar sobre a coisa que o incomoda na análise, mas essa coisa tem alta incidência de atuação na vida fora da análise. Como exemplo podemos citar um indivíduo que pode demorar meses ou até anos para relatar em análise para simplesmente falar que tem um problema com drogas, por exemplo. O indivíduo sofre daquilo, mas não fala sobre isso. A psicanálise tem demonstrado que o indivíduo não fala sobre o assunto para justamente poder manter o comportamento. A fala tem um papel fundamental na psicanálise: quando você fala sobre uma coisa, você tem uma altíssima capacidade de alterar sua relação com a coisa. Então, quando o indivíduo evita de falar, ele não esta evitando só de falar, ele evita mudar a relação dele com uma coisa, com aquilo que o incomoda ou com o que ele acha que naquele momento não incomoda. Então na verdade o indivíduo não resiste a falar, o indivíduo resiste a mudar, porque a palavra tem uma altíssima capacidade de alteração na realidade emocional do sujeito. A resistência também pode aparecer no superego através da reação terapêutica negativa onde o indivíduo aceita a falar sobre seus afetos mas os sintomas ao invés de diminuir, aumentam.
Freud observou que os afetos recalcados não só são impedidos de ascender à consciência, mas mandados, remanejados de novo para o inconsciente. Os efeitos do trauma ficam envoltos em afetos defensivos, ou seja, é como se o conteúdo reprimido, recalcado fosse uma espécie de cebola.
Freud se utiliza da metáfora da cebola: É como se o afeto reprimido fosse o centro de uma cebola e as resistências fossem camadas concêntricas em volta desse núcleo. O objetivo da análise seria descascar a cebola, ou seja, se o núcleo patogênico ou afeto reage impossibilitado de vir à consciência, de vir à tona, ele vai sofrer uma série de camadas de defesas. O conteúdo quer ficar reprimido. O que vai fundamentar essa prática chamada psicanálise é um analista que irá descascar essas camadas defensivas devagar, sessão a sessão, com o afã, o objetivo de chegar a este núcleo que nada mais é do que um afeto impedido de ser sentido, de ser reagido.

Freud começou a escutar o sofrimento e a partir dessa escuta ele tenta estabelecer a teoria que estrutura aquele sofrimento e, esclarecendo a estrutura do sofrimento passa a entender a necessidade da desmontagem das resistências.
Nesse sentido como se estrutura uma neurose? Basta entender como um indivíduo se defende dos próprios afetos, e aqui a palavra afeto mais uma vez deve ser sempre entendida como tudo aquilo que afeta o indivíduo mas ele não pode reagir àquilo.
Então o indivíduo afetado não podendo reagir como deseja, estrutura uma dor que deve ser reprimida e recalcada, vai ser defendida e mais pra frente o indivíduo vai evitar falar sobre aquilo.
Na análise, toda a questão prática esbarra numa questão: Qual é o melhor jeito de estruturarmos uma prática que permita ao indivíduo parar de resistir, ou seja, se defender cada vez menos dos afetos? Grande parte das dificuldades da prática analítica é a dificuldade que o indivíduo tem de superar as resistências que o analisando vai apresentar. Resistência não é só não falar sobre o assunto, é mais do que isso, resistência é: Disso nada quero falar, disso nada quero saber. Então superar as resistências é fundamentar uma prática onde o indivíduo consiga falar o mais livremente possível com o menor medo de julgamento, um menor medo de condenação.
Então o que é uma prática analítica? A pessoa fala: Eu vou me tornar psicanalista, o que eu preciso estudar? como preciso me comportar? como eu conduzo um tratamento? Vai esbarrar na seguinte coisa: como fazer o analisando se sentir bem o suficiente para falar o que ele não falaria pra ninguém, talvez nem para ele mesmo?
Então é por isso que a terapia tem por função estrutural uma prática que visa reduzir o máximo possível as resistências ao tratamento. Entendendo que esse tratamento nada mais é que falar livremente sobre os afetos.
A questão do terapeuta é: porque um indivíduo sofre e sobretudo porque o indivíduo resiste a tratar desse sofrimento? Bom Freud tem uma pista sobre isso: ele vai entender que o motor das resistências chama-se “complexo paterno”.
A palavra complexo foi inaugurada por Jung no período em que ele era freudiano, de 1908 a 1913, onde ele estuda com Freud, mas Freud se apropria do termo complexo dizendo que um complexo é um conglomerado de afetos inconscientizados sobre um determinado tema.
Então o processo analítico precisa superar o complexo paterno, porque também se você está entendendo que complexo é um conglomerado de afetos inconscientizados, o que significa a palavra paterno?

Na psicanálise, principalmente depois da atualização de Jacques Lacan, pai, significa lei, norma, limite. E além de lei, norma, limite, o que estrutura tudo isso é a sanção, punição, o indivíduo resiste porque teme a lei e teme ser punido pela lei.
Quando digo que o processo analítico precisa superar o complexo paterno, é preciso entender que esse complexo paterno, representado pelas autoridades sociais com alto poder de sugestão, é quem obstrui o esforço analítico que é dar a palavra àquele que não a têm. Quem tem a palavra? Quem tem a palavra é quem tem um limite.
Ter a palavra significa dizer não, basta, daqui não passa, impor limite, impor a palavra, dizer até onde você vai com tudo aquilo.
Quando a gente fala que o esforço da analise é dar a palavra para quem não tem é fazer o indivíduo conseguir colocar limites na própria vida ou na relação do outro consigo ou na própria relação do indivíduo consigo mesmo.
Então como a gente diz que cabe ao processo analítico superar o complexo paterno? Superar o medo da lei do outro? O que faz o indivíduo resistir a falar livremente e ter acesso aos próprios afetos e desejos? Medo. Medo de ser punido pelo que deseja, medo de ser punido pelo que sente.
Quanto maior a incidência do complexo paterno, maior a incidência do medo de falar, de ser punido. O indivíduo resiste à análise porque ele teme punição independente da racionalização, ou seja, independente de quão sofisticado vai ser o discurso dele: porque ele não precisa de análise, apesar dele estar com sintomas de ansiedade, de angústia, pânico, com sintomas obsessivos, compulsivos, etc…
O indivíduo tem a capacidade de operar a palavra, de organizar palavras, de racionalizar de uma maneira inteligente, mas essa racionalização toda, essa defesa, essa resistência toda está dizendo que ele tem medo, tem medo de ser punido por essa lei.
Numa perspectiva freudiana, se for necessário escolher entre o campo da verdade e o campo da autoridade, a psicanálise tem uma noção que é individual sobre a verdade: a verdade humana é a verdade do desejo humano.
Então, quando se diz que se for necessário escolher entre o campo da verdade e o campo da autoridade, é melhor para a psicanálise sempre optar pelo campo da verdade, ou seja, pelo campo do desejo, pois Freud vai dizer que é esse campo da verdade, é esse campo do desejo, é esse campo do inconsciente, que é a única forma de reduzir o sofrimento, reduzir o mal-estar individual e coletivo.
E então quando a gente diz entre a verdade e o correto, ou seja, o campo da autoridade, seja ela representada pelo marido, esposa, política ou da sociedade, entre a verdade e a autoridade, por função terapêutica, e por amor a essa verdade do sujeito individual e intransferível, o analista opta sempre pelo campo da verdade que é o campo do desejo e independente do que as autoridades falem e independente do que as autoridades desejem sobre o desejo individual desse indivíduo.
Então, o que faz da psicanálise uma abordagem um tanto quanto subversiva, porque ela é uma abordagem que privilegia o campo do desejo em detrimento do campo da autoridade. Assim então a verdadeira bússola freudiana é o texto inconsciente e a verdade do sintoma, onde o inconsciente é estruturado como uma linguagem, como um texto. Existe um discurso não falado e um discurso que é passível de ser verdadeiro. Então o texto inconsciente e a verdade dos sintomas são duas coisas que estão ligadas.
Na verdade é uma coisa só. O sintoma é toda e qualquer má disposição existencial, toda e qualquer má disposição existencial deflagra, denota um sintoma bom que é a verdade do sintoma. A verdade do sintoma é o discurso ainda reprimido. Então um indivíduo não padece exatamente de um sintoma, ele padece de um discurso não falado e é por isso que a técnica psicanalítica da livre associação, onde o indivíduo vai falar discursos livremente com o objetivo desse discursar livre, no meio desse blá, blá, blá, no meio dessa fala livremente associada, surja um discurso verdadeiro.
Quem vai dizer que o discurso que surgiu é verdadeiro, não é o analista, mas sim o analisando, ou seja, quando diz que a verdadeira bússola freudiana é o texto inconsciente e a verdade do sintoma é o texto recalcado, o discurso reprimido.
Sobre isso Freud vai dizer um pouco antes de morrer, em 1937, uma frase: “Não devemos esquecer que a relação analítica se baseia no amor à verdade” (FREUD – Vol. XXIII, pag. 265), ou seja, no reconhecimento da realidade e que exclui qualquer simulação ou engodo.
Aqui na frase reconhecimento da realidade, a realidade não é uma realidade coletiva. Quando Freud fala em realidade, ele fala em realidade psíquica, realidade emocional, o que você deveras sente, independente do que você acredita que deveria sentir.
É isso que ele chama de realidade, ou seja, sob o fundamento dessa prática psicanalítica que é o nosso objetivo, não podemos esquecer que a relação analítica de tratamento se baseia no reconhecimento de uma realidade emocional em que é excluída qualquer simulação ou engodo, ou seja, quem tem dificuldade de fazer a análise tem dificuldade em largar durante uma hora o conglomerado de engodos que conta pra si mesmo, sobre si mesmo.


O indivíduo quando se refere a certa dificuldade em fazer análise, podendo falar assim: ah mas eu não gosto, não consigo, não quero, não desejo, e pode resistir dos mais variados gêneros, o indivíduo está resistindo à própria realidade psíquica, mas ele resiste a isso porque é como se tivesse ficado um tanto quanto habituado convenientemente, confortavelmente ou mais ou menos confortavelmente habituado ao engodo, ou seja, que é ser uma espécie de simulação de si mesmo.
Jacques Lacan, psicanalista francês, vai abordar essa questão em 1953, dizendo que cabe ao psicanalista buscar superar as resistências do registro egóico, ou seja, fazer o indivíduo se livrar um pouco da idéia que ele tem de si mesmo, porque esse ego, essa idéia que o indivíduo mantém de si mesmo é exatamente isso que o afasta do desejo.
Porque se você observar o texto de Freud O Ego e o Id de 1923, no começo do texto já vai encontrar a seguinte frase: “O grande objetivo do ego, ou seja, do eu é manter um id afastado”.
Quando Lacan diz: cabe ao clínico fazer com que seu analisando supere as resistências do registro egóico, significa fazer o indivíduo se afastar um pouco da idéia que ele tem de si, abandonar um pouco essa idéia que ele tem dele mesmo.
Muitas vezes uma análise trava ou patina porque o analista não soube conduzir a situação, o analista não soube conduzir o seu analisando para se afastar, para que esse analisando se afaste da idéia que tem de si mesmo, ou pior, o analista através de terapêuticas do imaginário, ou seja, terapêuticas egóicas, reforçou a idéia que o indivíduo tem de si.
Reforçar a idéia que o indivíduo tem de si, você pode chamar de anti-psicanálise. Se o indivíduo entra numa análise e ele ao longo do processo analítico reforça as bases e noções que tem em si mesmo, vai ter uma análise que, mais hora, menos hora vai estagnar, porque o indivíduo vai chegar à seguinte conclusão: Sou isso!
Porque a análise patina ou estagna? Porque apesar de o indivíduo dizer: Sou o que sou, ele reforçou a idéia que ele tem disso, os sintomas vão estar lá, a ansiedade vai estar lá, a angústia vai estar lá, obsessão, compulsão, pesadelos, todos os fenômenos sintomáticos vão estar lá.
É quando o paciente afirma: Meu ego está estruturado, eu sou, digo, eu acredito que sou o que sou, mas eu tenho um sintoma. Tem um contrassenso aí. Se você fosse realmente quem você diz, tu não sofreria tanto. Então significa que em uma análise, ou seja, onde o analista reforça a fantasia que o indivíduo tem de si, a gente chama essa fantasia imaginária de ego, você vai observar um impasse na análise, um impasse da experiência analítica, porque esse processo de não questionar a idéia que ele tem de si, garante a estagnação do registro imaginário.
Eu queria voltar nessa expressão “estagnação do registro imaginário do eu”. O que é estagnação no registro imaginário do eu? Quanto menos o indivíduo ao longo da vida aceita questionar a idéia que tem de si, quanto menos ele aceita isso, mais sintomas esse indivíduo tem. Estagnação do registro imaginário do eu, paralisação da idéia de si, quanto mais rígida e mais paralisada a idéia que o indivíduo tem de si, seja quanto menos dinâmica for a idéia que o indivíduo tem disso, quanto menos movimentado as idéias que o indivíduo tem de si, maior a incidência de: ansiedade, angústia, fobia obsessão, etc..
Então o fundamento prático da psicanálise seria não permitir que o indivíduo entre em estagnação do registro imaginário de si mesmo. Fazer o indivíduo sempre questionar-se. O que significa o complexo paterno, ou seja, o que significa essa questão da autoridade na segunda tópica freudiana? A psicanálise ou freudismo tem duas tópicas, a obra freudismo em dois tópicos, dois conglomerados teóricos: primeiro a tópica cartográfica, ou seja: o inconsciente, pré-consciente e consciente, os três lugares da mente; e a segunda tópica as três estruturas da mente: id, ego e superego.
O complexo paterno, à luz da segunda tópica, está representado numa estrutura chamada superego. Vamos apresentar uma definição de superego dada pelo psicanalista francês Jacques Lacan: O superego é uma lei destituída de sentido que no entanto se escora exclusivamente na linguagem. Se eu digo: Você vai para a direita – é para permitir que o outro harmonize sua linguagem com a minha. Esse esforço por encontrar uma harmonização constitui a comunicação própria da linguagem. A censura é uma lei que se escora na palavra dada por uma autoridade que vai te limitar e se você ultrapassar os limites vai te punir. O nome disso a gente pode chamar de complexo paterno. O que é exatamente esse superego que impede, atrapalha, obsta a continuação ou o início do tratamento psicanalítico? A gente deve entender então que as resistências devem ser interpretadas como o excesso de lei dentro da subjetividade do analisante. O que é uma resistência? É justamente contra a resistência que toda prática, todos os fundamentos práticos visam superar. A resistência é o excesso de lei dentro do emocional da subjetividade do nosso analisando.
Então para a boa condução de uma análise cabe ao analista a dura missão de enxugar o excesso legal nessa subjetividade.
14
Ciência ou Pseudociência?
Durante o século XV o conhecimento era baseado apenas nas tradições sociais da época e filosofia religiosa da Igreja Católica. Apenas ao final desse mesmo século com os descobrimentos pela navegação e as reformas sociais é que o homem sentiu a necessidade de apoiar seus conhecimentos em novos alicerces, surgindo a disciplina do método, a formulação do cogito cartesiano. No final do século XIX, o Dr. Sigmund Freud elaborava a construção de um novo conhecimento, respeitando as mesmas regras e noções inauguradas por Descartes e reiteradamente afirmou que a psicanálise atendia aos requisitos para ser considerada uma ciência natural, insistindo exaustivamente sobre esse ponto (Caropreso, 2010). No entanto, muitos autores, como Popper entendiam que a psicanálise não cumpriria os requisitos necessários para ser considerada com tal, pois seus critérios de demarcação não eram passíveis de se mostrar falsos por meio de testes empíricos, ou seja, não seriam passíveis de serem falsificados quando confrontados com a experiência (Marinho 2012). A psicanálise trazia consigo o problema de como tornar inteligível ou palpável os seus conceitos, respeitando, assim, o paradigma científico, passando a ser vista como pseudociência. Popper enfatiza ainda que não são feitas observações sistemáticas por parte dos psicanalistas na tentativa de falsificar a teoria, nem é estabelecido sob quais condições empíricas específicas as teorias psicanalísticas seriam refutadas, ou seja, não há critérios de refutação. No sistema popperiano de ciência, não há espaço, portanto, para considerar a psicanálise uma ciência natural legítima, tal como Freud a quis.
Grunbaum defende, diferentemente de Popper, que a psicanálise pode sim ser exposta a testes e ter seus enunciados falsificados ou corroborados, portanto ela não é irrefutável, o que enfraquece a asserção de que é pseudociência. Já para Klimovsky, a psicanálise é passível de ser posta à prova a partir dos testes específicos das ciências humanas, tendo o mesmo potencial das outras teorias quando expostas a esses procedimentos (Marinho, 2012).
É fato que nas ciências físicas que lidam com acontecimentos do mundo inorgânico tal ideal de explicação é mais fácil de ser perseguido. No entanto, algumas ciências naturais como a Biologia Evolucionista, a Paleontologia e a Geologia, que tem seu status científico seguramente garantido, não trabalham exclusivamente com tal modelo de explicação e abordam seus objetos de outra maneira. A própria Biologia, por defender o caráter irredutível dos fenômenos orgânicos às leis naturais das físicas que regem a matéria inorgânica, enfrentou severas dificuldades de se afirmar como uma ciência autônoma e tão legítima quanto a física (Mayr, 2006). Além do que, no que tange especificamente ao problema da
15
explicação nas ciências, há fenômenos do domínio da Biologia Evolutiva que é impossível explicar por meio de leis (Mayr, 2006) e por um modelo de explicação nomológico-dedutivo. Explicar fenômenos como o desaparecimento dos dinossauros, o surgimento do homem e a diversidade orgânica exige outra abordagem. Trata-se de uma metodologia baseada em narrativas históricas que tentam reconstruir os fatos da evolução por meio de narrativas que são avaliadas tanto por sua plausibilidade quanto pelo seu poder explicativo.
Sendo assim, vemos que quando esclarecido alguns detalhes sobre os modelos de explicação com os quais a ciência trabalha que é possível então reconsiderar o status epistêmico da psicanálise. Como Freud asseverou, a psicanálise é sim uma ciência e tem todo o direito de ser valorada como tal. O fato de não proceder tal com as ciências físicas não é um defeito, apenas explicita o caráter específico dos objetos com os quais lida e a especificidade de sua explicação dos fenômenos psíquicos.
Considerações Finais
Neste artigo procurei explicar de um modo analítico, o que é a psicanálise e os fundamentos desta prática terapêutica, que tem por base fundamental a descoberta do inconsciente. Hoje sabemos que boa parte das doenças humanas são de natureza psíquicas, ou seja, o indivíduo sofre muitas vezes por falta de afeto, desejos reprimidos, excesso de comandos internos, questões existenciais, ou simplesmente vive em um ambiente negativo, gerando depressão, angústia, neuroses e toda a sorte de perturbações emocionais. Freud, pai da psicanálise e médico neurologista, logo nos primeiros anos de sua carreira, se dedicou a encontrar a cura para estes males, se arriscando inclusive no estudo de outras práticas, como a hipnose, até se surpreender, através do tratamento de uma paciente de seu amigo Breuer, chamada Berta Pappenheim, que ficou conhecida pelo pseudônimo de Anna O, a qual sofria de alucinações histéricas e sonambulismo. Freud e Breuer perceberam que a paciente ao falar em voz alta para si mesma sobre o que a atormentava, os sintomas começavam a desaparecer, vindo ela mesma, posteriormente a utilizar as expressões: “limpeza da chaminé e “cura pela fala”. A partir daí Freud entende que o indivíduo recalca reações, afetos, sentimentos, desejos, sonhos e devaneios e começa a reprimir uma série de coisas e acaba por adoecer porque resiste em acessar emoções que ele não quer sentir, as quais não são aceitas pela sua consciência moral. Baseado nestas “resistências” ele desenvolve toda uma metodologia para que o indivíduo consiga falar sobre o seu Eu, consiga se soltar dessas amarras,
16
proporcionando o retorno do reprimido à consciência, com o propósito de ser perlaborado, ressignificado de forma positiva, passando o indivíduo a entender como ele se defende e como ele resiste ao que ele mesmo sente. Neste contexto, a fala tem um papel fundamental, capaz de alterar a realidade emocional do sujeito, pois quando o indivíduo fala alguma coisa, ele muda a relação com a coisa. Mesmo a psicanálise não sendo aceita por todos como uma ciência, isso pouco importa, principalmente se levarmos em conta o motivo pelo qual ela foi criada um dia, pois sabemos que o sofrimento é inerente a condição humana. Freud deixou várias obras sobre o seu trabalho, as quais podemos citar: Estudo sobre Histeria (1895), A interpretação dos sonhos (1899), Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), O Inconsciente (1915), Introdução à Psicanálise (1917), Psicologia das Massas e Análise do Ego, Psicanálise e Teoria da Libido (1923), O Ego e o Id (1923), Neurose e Psicose (1924), dentre outros. Também podemos citar outros grandes nomes que contribuíram para o avanço da psicanálise dentre eles: Carl Gustav Jung, Jacques Lacan, Anna Freud, Melanie Klein, Erick Ericson dentre outros. Uma frase muito conhecida no meio da psicanálise e que me inspira muito: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana” – Carl Jung.
E fica aqui o nosso agradecimento ao pai e mestre da psicanálise: Sigmund Freud, com um trecho de uma rara entrevista em 07 de dezembro de 1926 na Rádio BBC de Londres:
Eu iniciei minha atividade profissional como neurologista tentando
trazer alívio a meus pacientes neuróticos. Pela influência de um velho
amigo, e por meus próprios esforços. Eu descobri fatos novos e
importantes sobre o inconsciente na vida psíquica, o papel dos
impulsos instintivos e assim por diante. Com essas descobertas, deu-se
a origem de uma nova ciência: Psicanálise, um tipo de psicologia, e
um novo método de tratamento das neuroses. Eu tive que pagar um
preço muito alto por esse pedaço de sorte. As pessoas não acreditavam
nos meus fatos e acharam minhas teorias repugnantes. A resistência
foi implacável. Por fim eu tive sucesso em conseguir discípulos e em
construir a Associação Internacional Psicanalítica. Mas a batalha
ainda não terminou (1926).
17
Referências Bibliográficas:
MARIANO, Rondineli Bezerra. Fundamentação científica da psicanálise e os modelos de explicação em ciência. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-51972018000100004 – Acesso em 15 de março de 2021
MENDES, Arthur. Fundamentos da Prática Psicanalítica. Disponível em: https://www.profarthurmendes.com.br/single-post/2019/02/13/fundamentos-da pr%C3%A1tica-psicanal%C3%ADtica – Acesso em 15 de março de 2021.
ROUDINESCO, Elizabete. Documentário A Invenção da Psicanálise. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JrIZn3od6So – Acesso em 15 de março de 2021
LACAN, J.O seminário livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise -1964
FREUD, S. Neurose, Psicose, Perversão – In: Obras Incompletas: Editora Autêntica, Belo Horizonte, 2016
FREUD, S. (1915) Recalque. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996
FREUD, S. (1923). O Ego e o Id. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XXIII). Rio de Janeiro: Imago, 1996
BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1990
LACAN, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009